Voltar novamente na sua casa já não era algo estranho para ela,se tornou hábito trancar-se naquele lugar pelas tardes que se sentia sozinha. Entretanto não era apenas um retorno comum, porque agora a casa vazia já não era sua e tão pouco se encontrava vazia.
Havia uma nova moradora que não parava de colocar os móveis e encher seu refúgio de coisas novas, coisas dela. Sentiu um imenso sufoco no estômago ao encontrar tudo ligeiramente diferente, embora as cores das paredes ainda fossem iguais, elas já não faziam eco cada vez que falava. Simpatizou-se com a nova residente, parecia estar contente com aquele lugar e estava disposta a melhorá-lo ainda mais com o tempo.Mas isso não era suficiente para preencher o sentimento que brotava em seu coração.
Ao conhecer os cômodos , sim , pois estes pareciam ser novos , não havia nada relativamente parecido com os cômodos antigos, ela andava de um lado a outro à procura de rastros de suas lembranças, se ainda estavam ali ou foram lavadas pela vida que agora fazia parte dela, sentiu como se estivesse em um ambiente novo e os laços que ainda restavam da sua vida antiga foram cortados naquele momento. Então como se não bastasse o incomodo daquele lugar surge a pergunta indiretamente direta : a permissão para pintar o seu quarto. Sim, pintar aquelas paredes rosas de azul, afinal, seu filho era um garoto e só tinha sete anos de idade, ele merecia um quarto digno de um menino. Levou um bom tempo para assimilar a mudança em seu quarto. Creio que ela suportara tudo até agora : os móveis, rostos , vestígios apagados, mas a pintura do seu quarto pareceu ser tão dificil de ser encarada. Tudo que havia ali foi feito por ela, da vontade dela e de acordo com o estilo dela. Não era uma mudança qualquer , os outros não entendiam , mas ela tinha necessidade de ver seu quarto intacto para que sentisse que as memórias também permaneceriam assim. Só que infelizmente o tempo leva tudo ,inclusive essas mais profundas memórias. Toda sua vida foi arrastada e ela se viu na obrigação de esquecê-la e recolorir seus momentos assim como fariam com o - não mais seu -quarto.
e é só soprar que as coisas vão.
uma a uma são levadas pelo tempo,
pelo vento, pela saudade.
pela ausencia, pela comodidade.
são levadas até que um dia não regressam mais.
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