Meu querido Chico,
Espero, é claro, que esta carta te encontre bem. Não me iludo: quando
digo “bem”, tento pensar de acordo com seus próprios critérios. Alguma
vitalidade. Poucas dores, uma ou outra limitação física, nada que
comprometa sua independência ou capacidade de tomar decisões. Se não for
esperar demais, também torço para que o fígado ainda funcione, o
suficiente para uma bebedeira ocasional.
Como andará o seu humor? É fácil rir de si mesmo aos trinta anos — e
agora? Tanto tempo depois, não me surpreenderia se as frustrações
tivessem feito algum estrago em seu espírito. Os devaneios, por menores
que sejam, acabam esmagados pelo peso dos fatos. As intenções elevadas
vão dando lugar a sentimentos mais, digamos, pedestres: a mesquinharia, o
orgulho, a ambição vazia. O cinismo. A amargura.
Foi impossível evitar. As coisas foram acontecendo, não havia como se
proteger. Há quem tenha te decepcionado; há, ao contrário, aqueles a
quem você ofendeu, que não conseguiu evitar magoar — e a culpa por esses
gestos ainda deve doer em você.
E há os mortos.
Sim, os mortos. Gente que você amou e que te fez feliz. Gente que
ajudava a te definir, que era a janela através da qual você enxergava
algum sentido no mundo — e que agora, justamente quando era mais
necessário, não está mais por aqui. Você já sabia que seria assim, mas
isso não ajudou em muita coisa. Posso imaginar sua perplexidade. Seu
assombro. Diante desse vazio, não deve restar muito a fazer senão
sentar-se num canto e, em silêncio, acostumar-se à solidão.
A pergunta soa quase absurda, mas eu me sinto obrigado a fazê-la:
diante de tudo o que aconteceu, você ainda será capaz de se apaixonar? A
proximidade do fim carrega um quê de egoísmo: é uma luta que se trava a
sós. Não seria o amor, do seu ponto de vista, um capricho típico de
quem, por estar distante da morte, ainda vive a ilusão da eternidade?
É bem provável. Mas, pensando melhor, também pode ser que aconteça
exatamente o contrário. Que a iminência do fim, em vez de paralisar o
espírito, recheie as coisas de uma intensidade inesperada. De uma hora
para outra, você se vê lúcido e forte. Pela primeira vez, sente-se capaz
de encarar a vida de frente. Tudo é claro, tudo é igualmente simples e
fundamental. As coisas são o que são, e é desse ponto privilegiado que
você se permite entregar-se sem medo às paixões mais ferozes.
Será mesmo? Não sei. Estou um pouco confuso. Nem tenho muita certeza,
na verdade, do motivo de estar escrevendo tudo isso. No fundo, acho que
tenho apenas a expectativa de que essas linhas te alcancem — e que você
as leia com uma espécie de compaixão. Quanta solenidade, meu Deus. Que
desperdício de palavras. O que espero, no fim das contas, é que você
encontre esta carta e, com um sorriso no rosto, grite para o cômodo
vizinho: vem cá, meu bem. Vem ver isso que eu achei na gaveta. Dá pra
acreditar numa coisa dessas?
Um abraço,
Chico.
baseada na proposta de redação pases UFV 2010.
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