Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas
exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que
eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras.
Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para
satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me
deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me
interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já
fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las
de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal,
vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo
calão. Não merecem o mínimo respeito.
Um escritor que passasse a
respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão
ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel.
Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou a tediosa
formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa ! Com que
cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas
em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e
colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática
precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.
Luís Fernando Veríssimo.
Comentários
Postar um comentário