"Nós, nos primeiros estágios da doença de Alzheimer, ainda não somos completamente incompetentes. Não somos desprovidos de linguagem nem de opiniões importantes, nem de períodos extensos de lucidez. Mas já não temos competência suficiente para que nos sejam confiadas muitas demandas e responsabilidades de nossa vida anterior. Temos a sensação de não estar nem cá nem lá, como um personagem numa terra bizarra. É um lugar muito solitário e frustrante para se estar (...) E não tenho nenhum controle sobre os ontens que conservo e os que são apagados. Não há como negociar com esta doença. Não posso oferecer a ela os nomes dos presidentes dos Estados Unidos em troca dos nomes dos meus filhos. Não posso lhe dar os nomes das capitais dos estados e conservar as lembranças de meu marido (...) Meus ontens estão desaparecendo e meus amanhãs são incertos. Então, para que eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente. Num amanhã próximo, esquecerei que estive aqui diante de vocês e que fiz este discurso. Mas o simples fato de eu vir a esquecê-lo num amanhã qualquer não significa que hoje eu não tenha vivido cada segundo dele. Esquecerei o hoje, mas isso não significa que o hoje não tem importância." Para Sempre Alice
Sempre me pergunto o quão irônico e ao mesmo tempo desafiante para mim é cada dia que se passa desde aquele dia em que aos prantos eu me questionava como seria quando você me esquecesse. Mas sera que você iria me esquecer? Essa dúvida não saia da minha cabeça, e a cada dia o medo de não estar mais nas suas memórias tomava conta de mim e por tentativas inúmeras, por vezes falhas, minhas chegadas eram sempre escandalosas, barulhentas , pois assim eu pensava que você teria tempo de se lembrar, de reconhecer minha voz. Eu tinha medo de um dia chegar e ser algum tipo de estranha pra você. Claro que a gente aprende muito com o tempo , aprende inclusive sobre memórias. Logo eu, que vivo de lembranças , vivo pra lembrar, da roupa, do sapato, do gesto, do palavra dita. Logo eu, de uma memória íntegra, que nunca gostei de ser esquecida por seu ninguém, tive que encarar o fato de que minha lembrança estava se esvairando da sua memória. O fato de que talvez eu pôderia chegar fazendo todo barulho possível, ainda sim, você iria me olhar com uma expressão vaga, procurando em algum lugar qualquer coisa que o remetesse a quem-é-aquela-garota. eu a conheco, tenho certeza, ela me ama, mas não consigo me lembrar quem ela é. As vezes até saia um " minha filha" sem sucesso e numa última tentativa frustrante um: "quem é você?"
Eu segurei as lágrimas incontáveis vezes , eu tentava a todo custo não soltar aquele velho "você não lembra?" , Tudo isso pra aprender com a vida de que as nossas lembranças, ainda que por guardadas com todo amor , não são suficientes para mostrar o que você é hoje pra mim. Voce se esquece do que comeu no almoço, do que fez ontem, do seu aniversário, voce se esquece do banho, do numero da conta, da senha do banco. Mas isso nunca importou. E não faria a menor diferença. Porque quem tem que lembrar de quem você é, somos nós.
"Eu esqueci quem você é, mas eu não esqueci que te amo."

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