Algumas coisas não mudam. Eu sou família da cabeça aos pés. Não é preciso muito tempo para quem conviver comigo (e com minha família) perceber. A gente é família da cabeça aos pés. Tudo começou com uma casa de praia em Mucuri, cidade pequena do sul da Bahia, quando me perguntava eu dizia: é o melhor carnaval da Bahia. Eu ouvia minha mãe dizer que não troca Mucuri por nada nesse mundo, eu via minhas tias em cima do trio e a loucura para sair em um bloco de rua, tinha que comprar o CD de axé Bahia todo ano, eram 3 em 1, depois que o carnaval passava eu ficava escondida na sala de vó dançando as músicas. Tudo começou com uma casa de praia em Mucuri. Mucuri foi palco dos carnavais do meu pai quando ainda ''paquerava'' minha mãe - termo que ele usa frequentemente para contar alguma história- Ele ia e mandava alguém chamá-la. Seu Heliton que ficava a espreita não podia saber. Era ai que entrava os amigos dele. Nilsinho e Mazinho, dois irmãos que mais parecem um só. Vivíamos juntos, meu pai dizia. Fizeram amizade com meu tio Nuno, bem esperto meu pai. Mais tarde virou cunhado e ele já contava com a ajudinha dele para chegar até minha mãe. Tudo começou com uma casa de praia em Mucuri. Mucuri foi palco de diversos carnavais das minhas tias com as primas, na verdade, não são só primas, sabemos bem, são irmãs. Tudo começou com uma casa de praia em Mucuri. Dona Célia que adora convidar, convidada tanta gente que se eu contar ninguém acredita: nessa casa já dormiu 33 pessoas, minha mãe dizia. Eu, criança, ouvia tudo tão atenta que hoje consigo reproduzir facilmente. Tudo começou com uma casa de praia em Mucuri. Meu tio Keiler que já avistava a espivitada da minha tia Gé também não ficava pra trás com as artimanhas pra chegar até ela no carnaval da Bahia, mas ela que era muito pra frente só queria saber de bloco, show, ficar em cima do trio. Mas de carnaval em carnaval, ganhou a nega mais baiana da família. Mais baiana que meu próprio tio Nuno, que de tanto tempo na cidade, tinha que fazer jus a terra que agora era sua raiz e conquistar a baiana legítima, arretada, dona da melhor moqueca da Bahia. Mas tudo começou com uma casa de praia em Mucuri. Quem convive com esse povo sabe bem o que eu to falando, a gente família da cabeça aos pés. Hoje meu avô faz 75 anos. Já faz um bom tempo que ele vem perdendo a memória e algumas expressões e reações são raras, por vezes difíceis de arrancar dele, e as vezes tenho receio de que eu me esqueça de como ele era antes da doença, mas tem uma lembrança que eu não me esqueço por nada nesse mundo, e nem é aquela história que ele repetia inúmeras vezes de quando Mara não sabia o que fazer que eu chorava, e chorava, e chorava e ela gritava "ô pai, o que eu faço?" e ai ele me pegava no colo e deitava na rede e ficava me ninando até eu parar de chorar e dormir. Não é nem dessa história que eu tô falando. Mas eu dizia que não gostava de beber água e não bebia mesmo, minha mãe brigava, minhas tias brigavam, todo mundo insistia: bebe água, Thaynah. Meu avô, que sempre gostou de puxar o saco dos netos, comigo não era diferente: me levava todo dia na beira da praia e pagava um coco pra mim. Mas tudo começou com uma casa de praia em Mucuri- BA.
Uma reprodução bem pequena de tudo que aconteceu nesse fim de semana, não chega perto da energia que foi e das pessoas que estavam lá. Agradeço a Deus por quem começou essa família e peço que um dia, assim como todos os agregados, Ele me dê alguém à altura de entrar nela.
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